16 de ago. de 2024

ESTOU NO FUTURO

 


Sim, estou em 2020. Tive esse estado de que estou no futuro quando estava no carro que chamei a partir do iPhone usando a rede 4G e conversando via WhatsApp com minha noiva que trabalha na Zona Norte do Rio e com meu pai na Zona Oeste e eu estou em Niterói, do outro lado da Guanabara. Chegando o destino, o também smartphone motorista do parceiro do 99 — afinal eles não são empregados, avisa-nos com aquela voz metálica da inteligência artificial: “destino a frente, corrida paga em dinheiro”, lembrando a mim e ao condutor que está na hora de separar as trocas e de que o fim da corrida se avizinha.

Quantas coisas estão ao meu redor e acessíveis que minha avó em 1950 não sonhava que existisse ou que seria possível? Ela passou por várias revoluções tecnológicas, desde o rádio até o smartphone — Dona Hilda nos deixou em 2016 — e eu já naquela época fiquei me questionando como reagirei ao futuro. Não só em relação à tecnologia, mas ao mundo e a mim mesmo.

Louis Lavelle diz que o instante é precisamente o cruzamento do tempo com a eternidade, e é este curto espaço de tempo que tenho, e o filósofo francês continua a dizer que é nele que agimos, é nele que o
real toma para nós a sua forma sensível ”. De que adianta conjecturar o futuro, seremos seres biônicos como na série Black Mirror ou e se vivermos entre paus e pedras depois de um cataclisma nuclear, se este instante que temos eu o faço troça com ele.

Carpe diem, dizem alguns.

Memento mori, afirmo outros.

Unem-se as duas sentenças latinas: Memento mori carpe diem — Lembre-se que vai morrer, aproveite o dia.

Sábios monges que cunharam esta expressão que não deveria ser mutilada. Uma sem a outra fica sem sentido. O carpe diem torna-se uma ode à vida sem consequências, afinal aproveite o dia. Memento mori puro e simplesmente transforma-se no cântico fatalista; vamos morrer. Mas se o instante é a articulação entre o tempo e a eternidade, o vivamos da melhor forma possível, sabendo que sim, a eternidade chegará. Como chegou para minha avó em 2016.

Não posso dizer que Dona Hilda foi uma mulher do seu tempo porque muitas das ações que ela fez chega até mim hoje — e agradeço a Deus por chegar. Restringir a ser “homem ou mulher do seu tempo” é reduzir a capacidade que os atos humanos têm de chegar até hoje e ir além. Sim, minha vida é circunscrita no tempo evidentemente, como a de todos são, mas você e eu somos chamados a sermos eternos.

Em 2070 pouco me importa se teremos olhos biônicos que substituirão as câmeras de nossos smartphones ou que drones entregarão nossas encomendas da Amazon ou até mesmo se o homem terá pisado em Marte, interessará mesmo se vivo hoje, em 2020, de modo verdadeiro e intenso, pois a eternidade já se avizinha. Na atualidade não há espaço para o cálculo, para a mesquinhez, para o egoísmo e outras formas de se jogar fora desse instante que tenho. Na eternidade com o Eterno só há espaço para o Amor e é ele quem permanece.

FUI CONVOCADO


Sim, fui convocado. Não sou soldado nem muito menos jogador de futebol, meu pai até que queria um dos dois papéis acima, mas a sorte nunca me ofereceu na disposição bélica muito menos no talento com a gorduchinha, mas sim, fui convocado.

Convocação presume-se que alguém maior que eu tenha feito o chamado e este alguém exista, é a própria Realidade em si.

Numa viagem corriqueira de trem no ramal Santa Cruz, voltando para casa na primeira semana do ano. Um dia nublado, chuvoso em sua maior parte, dia até mesmo sorumbático. Entre músicas tocadas em sua maior potência em meus fones de ouvido e memes sobre uma tal terceira guerra mundial, já perto da estação final fui. convocado pela Realidade de maneira retumbante mesmo que cegado pelo brilho da tela do iPhone através de algo mais rotineiro ainda: um pôr-do-sol.

Discussões acaloradas feitas pelos filósofos colocam em xeque a importância e a veracidade da beleza e não pretendo entrar nessa seara, até porque nada tenho a exceção, mas a beleza nada extraordinário de um pôr-do-sol comum de verão no Rio de Janeiro me convocou a realidade.

Confesso que foi arrebatador.

Foi a maior experiência com a beleza que já pude presenciar? Não. Mas hoje foi diferente. O clima do dia, a extrema fixação dos meus sentidos nesse aparelho e em seus acessórios, uma desconexão parcial com o mundo a minha volta que viajava por mim, mas aquele pôr-do-sol. Foi ele.

Na janela oposta à posição onde me encontrei aquele pedaço de metal chinês que trafega na linha férrea carioca, ali fui convocado.

Hoje é o terceiro dia de 2020, muitas resoluções de ano novo já foram feitas e eu não havia feito a minha até agora. Na verdade nunca o fizera, traços do meu temperamento talvez, esta convocação o trato de fazê-lo por mim. Sem fugas, sem distrações ou blindagens, a realidade chama-me de modo intenso e atraente.

Os antigos classificaram a beleza como um transcendental, uma das características de Deus que as coisas criadas participaram por terem sua procedência do benefício Divino. E aquele pequeno arrebatamento foi sim uma experiência transcendental; deixei o iPhone de lado, pouco me importava a música a destruir meus tímpanos, a única coisa que realmente importava era olhar aquele pôr-do-sol.

Levantei-me e fui ao encontro mais próximo possível daquela visão, mas o trem se deslocava até seu destino comum e o sol também se escondia. O tempo foi passando e enfim cheguei. Aquele arrebatamento acabou. Saem as cores vivas e alaranjadas do céu. e entra o cinza das construções. Deveria ser algo frustrante, mas não foi. Naqueles parcos minutos entendi o que preciso.

Estar presente no mundo, sem blindagens, distrações, essa é a convocação da Realidade. Quantas oportunidades foram perdidas de uma experiência como essa porque simplesmente deixei passar? O mundo é bom – geme em dores de parto é verdade – mas sobretudo é, como um outro transcendental, bom, como Aquele que o fez.

Se Deus me conservar no ser durante todos os outros 363 dias restantes deste ano – e por mais não sei mais quantos ainda por vir – terei ainda muitos crepúsculos a assistir, propositalmente, apenas percebendo a luz fugindo e dando lugar às trevas da noite ou como hoje, arrebatado. Que pelo menos mais uma vez na vida possa se repetir tal experiência.

3 de nov. de 2011

A Chuva, o Frio e a “solidão acompanhada”.


A Chuva, o Frio e a “solidão acompanhada”.

  A vida dos eremitas é, e sempre foi encarada, como sendo uma extrema solidão. Mas hoje, querendo ou não, acabamos também como “eremitas”. Não porque queremos nos afastar do mundo e nos aproximar da íntima experiência de Deus, como os Padres do deserto, mas porque as situações corriqueiras nos acabam levando a essa situação.
  No Passado houve aqueles que se retiravam do convívio social para ter essa experiência consigo só primeiramente e depois com Deus. Cristo se retirou no deserto e lá foi tentado por satanás. Mas no nosso caso, hoje no século XXI, o modo que se vê essa solidão quase se passa despercebido.
  Trancamos-nos em nossos quartos, nos entretemos com o computador, TV a até mesmo quando estamos com outras pessoas, estamos sozinhos. Isso é o que eu digo com “solidão acompanhada”. Temos aqueles que nos rodeiam, conversamos, interagimos, mas o aspecto do estar sozinho influi muito nas relações. Cada vez mais desejamos estar sozinhos.
  Mas a experiência de estar no deserto é ruim? Não! O deserto acaba sendo um local de descobertas. Nossa resistência é colocada à prova. Somos tentados em todos os lugares, mas no deserto isso é mais fácil de suceder. Lá somente existe o “eu”. Não há como se refugiar no outro, mas na verdade existe um modo de se refugiar. Onde? Em Deus está nossa fortaleza, nosso refúgio.
  Quando nos é proposta uma oportunidade de rever aquilo que fizemos é sempre muito doloroso, e o deserto é um bom lugar pra se fazer esse exercício. Angustia, pois nos faz sair de uma posição cômoda, onde achamos que tudo está bom e bem. Até pode estar bem de fato, mas só a exigência de se mover e refletir já ajuda.
  E se vermos que o que faço não é correto, ou que não está bom? É justamente para isso que devemos primeiro refletir. Como já disse, o deserto é um ótimo lugar para tal. Vejamos: O deserto, a “solidão acompanhada” em si é boa ou ruim? Sinceramente, hoje eu não sinto apto para responder a essa questão. Mas uma coisa que aprendi nesses poucos 18 anos de vida. Às vezes um momento de deserto é bom, mas ele se tornar eterno ficaria um fardo em demasia. Fomos criados para nos relacionar.

Experiência de deserto? Sim.
Deserto eterno? Não.

  O problema é pensar que relacionar-se apenas virtualmente basta. O contato, a franca conversa sobre alegrias ou angústias, olho no olho nos faz melhor. Um abraço, um beijo... Deus se manifesta nesses gestos sinceros.
  Afinal, a chuva e o frio que estão no título desta nossa reflexão, o que tem a ver? Tudo! Pois quando chove ou faz frio onde procuramos nos refugiar? Em locais aquecidos. E aonde vamos nos refugiar quando nossa Alma se encontra numa noite chuvosa e fria? Nas festas, bebidas e drogas? Não!! Mas sim no caloroso Coração Misericordioso de Cristo, Lá depositamos nossas misérias e nos aquecemos.
  Possamos, pois, viver os momentos de deserto e cada vez mais nos amar fraternalmente e saber se refugiar no lugar certo.


Escrito por Fábio Luiz no dia 01 de Novembro de 2011, ás 21h44min, na cidade do Rio de Janeiro. Dia de Todos os Santos.